A Paixão de Ajuricaba (1978/79)

O Teatro Cena Aberta apresenta: “A Paixão de Ajuricaba”, texto de Márcio Souza, apresentado nas ruas, praças e bairros de Belém, em fevereiro de 1978 e ainda em 1979. 

Nesse período o grupo adotou textos regionais para suas montagens, como do amazonense Márcio Souza, mas até estes passavam por mudanças, nunca eram montados em sua versão original, havia um minucioso estudo de adaptação para adequá-los às preocupações sócio-político-culturais de Belém, e até mesmo aos conflitos agrários no Pará, como foi o caso de “A Paixão de Ajuricaba”.  Espetáculo montado durante as discussões sobre o projeto de emancipação do índio, marco da associação do TCA com outras entidades, postura adotada como forma de fazer do teatro um meio de participação política, e não um fenômeno isolado das outras lutas, em parceria com o Grupo de Apoio ao Índio, Associação Regional dos Sociólogos do Pará, e Associação Brasileira de Antropologia do Pará. Pela relevância do tema, a peça ainda foi convidada para se apresentar na Sala Martins Pena do Teatro Nacional, em Brasília, no ano de 1979. Este espetáculo, quando apresentado no anfiteatro da Praça da República tinha como cenário apenas um mapa do Brasil pintado no chão, demarcando territórios indígenas.

Curiosidade: as montagens de rua do TCA faziam uso circular do espaço, entendendo que o círculo funciona como mantenedor de grande energia ao demarcar o espaço-ritual e performático da ação (LIGIÉRO, 2004, p. 92).

“A botânica que tem a praça, e também essa coisa urbana entrelaçada, essa selva do “Ajuricaba”, passou a ser uma selva urbana, e isso era muito forte, porque na realidade você usava o artifício do teatro de arena e na realidade o ator do teatro de arena tem que estar em circuito 360 graus daquilo. Porque o público está ali. Então sua interpretação tem que estar voltada para todos esses ângulos. A gente estudava muito isso, como a cena poderia ser desenvolvida nesse ângulo e atingir todos os outros ângulos, atingir melhor a amplitude também” (Emanuel Franco, arquiteto e artista plástico, ex-ator do TCA, 2010).

“A vantagem que vejo no trabalho da rua está precisamente no fato de o espectador ser apanhado desprevenido no curso de sua vida. Literalmente ele é pego pelo teatro, quando estava vivendo ou pretendendo viver uma dimensão outra de sua existência. Daí então, me parecer difícil qualquer avaliação de um teatro como o que fazemos, usando a régua e o compasso que aferem um espetáculo realizado dentro do Theatro da Paz ou do Teatro Experimental Waldemar Henrique. Na praça, a convenção é outra, e não me parece exagerado dizer que a sacralização do fato teatral, embora exista, é reduzida à sua menor dimensão. Contudo, nesse trabalho do Teatro Cena Aberta, o que mais me agrada é precisamente o período de ensaio, aquele período em que se vai construindo mansamente aquilo que será o que chamam de espetáculo. Por ensaiarmos também em praça pública, temos desde o começo o espectador que acompanha a carpintaria do espetáculo, sua feitura e seu acabamento. Então, esse aspecto significa mostrar de dentro para fora, desmistificadoramente, o que representa a prática teatral, geralmente encarada como ameno diletantismo de pessoas ociosas, mais empenhadas em gastar seu tempo com frivolidades que em executar um trabalho constituído de esforço, disciplina e muita paciência” (Luís Otávio Barata, 1980).

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