Performance da Plenitude e da Ausência

Posted in 6-Vídeos on 24/11/2010 by opalhacodedeus

O vídeo “Performance da Plenitude e da Ausência”, é fruto de minha pesquisa de Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2008/2010), e foi criado para compor a defesa da Dissertação intitulada: “Performance da Plenitude e Performance da Ausência: vida-obra de Luís Otávio Barata na cena de Belém”.

 

Roteiro e Direção: Michele Campos. Edição: Michele Campos e Marcello Gabbay.

Esta pesquisa recupera a vida-obra do artista paraense Luís Otávio Barata a partir de duas perspectivas: a performance da plenitude compreende o surgimento do teatro experimental na cidade de Belém, Pará, no período de 1970 a 1990, tendo como ponto de partida os trabalhos de Barata à frente do grupo Teatro Cena Aberta, em torno da fundação do Teatro Experimental Waldemar Henrique, e de outros grupos com que trabalhou, bem como os movimentos políticos que propiciaram o surgimento da Federação Estadual dos Atores, Autores e Técnicos de Teatro, a Fesat, em 1979, e de novas políticas culturais no Pará. A performance da ausência compreende os últimos anos de vida de Barata, o que observamos como seu trabalho tardio e mais maduro; sua ruptura com a cidade de Belém e reclusão em São Paulo onde, durante oito anos, vive uma experiência performática cotidiana que só terá fim com o seu próprio falecimento, em 2006. Como método desta pesquisa nos valemos de intenso trabalho etnográfico com diversas idas a campo e a coleta de depoimentos de artistas, amigos, familiares e testemunhas desta cena, bem como vasto material histórico e biográfico, como agendas, textos, anotações pessoais, fotografias, vídeos, dentre outros.

PALAVRAS-CHAVE: Luís Otávio Barata; teatro experimental; teatro político; performance; Belém.

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Chegou o dia da defesa!

Posted in 7-Convites on 21/10/2010 by opalhacodedeus

Notícias do além mar

Posted in 5-Personagens de Barata on 28/07/2010 by opalhacodedeus

No dia 20 de outubro de 2009, a editora de cinema Susana Rossberg, paulista radicada na Bélgica a mais de 30 anos, procurava noticias do amigo Luís Otávio Barata na internet, quando encontra este blog de pesquisa. A partir daí, passamos a manter contatos por email. E em 2 de dezembro de 2009 Susana me enviou uma carta narrando os 3 anos vividos ao lado de Luís (1965-1968), sob o título “Meus anos com o Luís Otávio Barata”, na carta Susana narra: 

“Passei a maior parte da minha vida no exterior. Perdi meu pai aos três anos, minha mãe aos quinze, e fui viver nos Estados Unidos, com a irmã dela. Aos dezenove voltei para o Brasil. Minha riqueza de expressão sofreu muito com a distância do nosso país.
Conheci o Luís Otávio na Escola de Arte Dramática de São Paulo, em 1966. Ele estava inscrito no último ano (não sei quantos anos havia) de cenografia, estudando com o Flávio Império. Parecia mais velho (tinha cinco anos a mais do que eu), e sempre me senti mais em confiança com homens mais velhos. O que me fascinou, diretamente, no Luís, era seu bigode e sua pele empipocada, mas sobretudo o bigode. Ele me fazia pensar no homem que aparecia no pacote das lâminas de barbear Gilette (…).

 

foto tirada por Susana, circa 1967

 O Luís era uma pessoa séria, que estava sempre na dele. Cada vez que eu o via, estava correndo de um lado para o outro, preparando alguma coisa, algum trabalho. A primeira lembrança que tenho dele é de um homem magro, de bigode, atravessando, rapidamente, uma grande praça da EAD.
Eu cursava psicologia na USP, com a Christine [uma amiga], e foi graças a ela que me inscrevi na EAD. Um dia a Christine me pediu pra acompanhá-la até a EAD, porque ela queria se inscrever no curso de interpretação dramática. Quando cheguei lá, gostei tanto do ambiente que também me inscrevi, em crítica teatral (…).
Nossos professores, um deles o Augusto Boal, vinham em parte do Teatro de Arena, e assistíamos aos espetáculos do Arena (como também aos do Teatro Oficina, e a outros). Saíamos em grupo, nem sempre com o Luís Otávio, mas um dia, saímos em grupo com ele, e, quando a pessoa que tinha carro me deixou em casa, o Luís desceu do carro e passou a noite comigo, na minha cama de solteira (…).
Como eu era órfã, morava sozinha, algo muito fora do comum no Brasil dos anos sessenta. Alguns meses após minha volta para o Brasil, a filha da vizinha que morava em frente, e que tinha, mais ou menos, minha idade, me disse que sua mãe tinha lhe proibido de falar comigo, porque eu morava sozinha. Morar sozinha significava que eu não prestava.
Minha casa logo se tornou o ponto de encontro de amigos, visto que nenhum outro aluno morava sozinho. Era um apartamento alugado, com uma sala e um quartinho.
O Luís morava numa pensão, onde compartilhava um quarto com outro rapaz. Quando fiquei sabendo que, no fim da vida, ele também estava morando numa pensão, em São Paulo, refleti que ele terminou sua vida como quando eu o conheci. Talvez ele tivesse querido retomar seus passos, ver o que teria acontecido se tivesse trilhado outro caminho.
Convidei o Luís para vir morar comigo, o que ele fez. Durante esse período, num dado momento, o Walter Bandeira também morou conosco, dormindo na sala (…) não ficou na nossa casa durante muito tempo”.
 

Susana me enviou alguns desenhos que o Luís lhe deu naquela época. Segundo ela são desenhos que a representam, no período em que estiveram na Europa. 

“Penso que ilustram bem o que acontecia – o Luís estava com uma mulher que tinha um sexo aberto, e que não sabia o que fazer com ele. Num dos desenhos tem uma chave – talvez ele estivesse procurando a chave pra fazer funcionar essa mulher, ou esse relacionamento sexual. 

Barata, circa 1967

 
 

Barata, circa 1967 – A tarja branca no canto esquerdo cobre a inscrição de Susana “olha aí”, ocultada por ela anos depois por acreditar que esta imagem capturava sua “pessoa angustiada que sofre de enxaqueca”

O Luís terminou os estudos em 1966, e em 1967 começou a trabalhar na área da cenografia na Televisão Tupi, canal 7, no bairro do Sumaré”.

Nesse período eles moravam num apto na Alameda Santos, mas Susana tinha uma casa alugada no bairro do Sumaré, para onde logo se mudaram.

“Quando ele recebeu o primeiro salário, foi para o supermercado e comprou uma porção de latas de conserva de legumes, pensando que iriam durar o mês inteiro. Não duraram, e o dinheiro também não durou (…), não tínhamos mais dinheiro nem pra dar uma gorjeta para os homens que fizeram a mudança. O Luís disse que não era um problema, que poderíamos oferecer-lhes uma cerveja (…). No Sumaré nossa casa se tornou, mais do que nunca, o lugar de encontro e o refúgio de nossos amigos. Éramos de esquerda, mas não seguíamos, exatamente, a mesma linha política. O Luís parecia seguir a linha do PC. Escrevo ‘parecia’ porque vivíamos em plena ditadura, e quanto menos se falasse de opiniões políticas, melhor, para o caso de sermos presos e torturados (…) participávamos juntos de passeatas, e uma vez saiu no Estadão uma foto de nós dois à frente duma passeata. Fiquei com muito medo, porque sabia que a ditadura utilizava as fotos feitas durante as manifestações pra descobrir quem era quem, quem era contra o regime (…).
Num dado momento, talvez porque o seu trabalho na Tupi não fosse suficientemente interessante, o Luís começou a dizer que contava ir pra Checoslováquia, pra estudar com o cenógrafo Josef Svoboda. O Svoboda tinha estado não sei em qual Bienal de São Paulo [1962]. O Luís o tinha encontrado, tinha falado com ele, e o Svoboda tinha dito ‘venha’. Quando ouvi isso, disse ao Luís que, se ele estivesse de acordo, eu iria junto. Não sabia o que ia fazer na Checoslováquia, mas não queria perder o Luís. Eu não tinha mais família, sentia a necessidade de ter alguém para substituí-la (…). A ida pra Europa era, igualmente, uma boa idéia por causa da ditadura. Não sabíamos se estávamos fichados, já tínhamos amigos na prisão, e achamos bom cair fora”.
 

Então, precisando de recursos para a viagem, Susana teve de dispor do aluguel de uma das duas casas que possuía em São Paulo e da pensão que o governo alemão lhe pagava por conta da perseguição nazista que interrompeu a carreira de médica e advogado de seus pais durante a Segunda Guerra. 

“Se não me engano, saímos do Brasil em agosto de 1967 (…) passamos dois dias em Lisboa. Em seguida fomos ao Festival de Avignon, muito interessante. Nos alojávamos em albergues da juventude. Não me lembro mais quando paramos em Berlin, se na ida ou na volta de Praga – provavelmente na ida. Ficamos lá durante dois dias, e visitamos, igualmente, Berlin Oriental. Também passamos dois dias em Paris, não sei quando, durante essa travessia da Europa. Creio que a gente tinha um ‘pass’ que nos permitia de viajar de trem durante um certo tempo (…). Acabamos chegando em Praga (…), não tínhamos avisado que íamos chegar – simplesmente aparecemos, nos dizendo que, como éramos cidadãos de um país que sofria de um regime de direita, de qualquer maneira iam nos aceitar. Acontece que o pedido pra se estudar a partir de setembro, inicio do ano letivo, tinha de ser feito em março, e depois tinha-se de cursar uma escola onde se aprende a língua checa durante dois anos. As escolas de checo estavam abarrotadas, porque era a época da guerra do Vietnam, e os checos ajudavam os vietnamitas do norte, dando prioridade aos seus cidadãos. Tínhamos largado tudo no Brasil, e estávamos lá, na Checoslováquia, sem saber o que fazer.
Por acaso, tínhamos assistido, na EAD, a uma conferência da teatróloga Heleny Guariba (que, tempos depois, foi assassinada pela ditadura). A Heleny tinha feito um estágio com o Roger Planchon e, durante esse estágio, tinha conhecido outro estagiário diplomado do INSAS, escola de teatro e de cinema de Bruxelas. Como a única dica que tínhamos era o INSAS, tocamos pra Bruxelas. Chegamos na véspera do vestibular, passamos no vestibular pra seção de direção de teatro/animação cultural e, não sei como, fomos aceitos. Não que fôssemos nulos, de maneira alguma, mas o nosso francês era razoável, longe de bom. O francês do Luís era melhor do que o meu”.
 

Susana conta que nesse tempo Luís Otávio desenhava muito, lia muito em francês – “um livro do qual gostou muito foi “Culture ou Mise en Condition” de Hans Magnus Enzensberger. Lia muito o jornal Le Monde, fumava muito (cigarros Gitanes ou Gauloises), e cozinhava muito melhor do que eu, que nunca me interessei pela cozinha. Chegou a pedir as receitas à sua tia Madre [tia materna que criou Luís]. 

Uma das receitas enviadas pela tia Madre, sempre com a assinatura "bom apetite"

“O Luís era uma pessoa muito inteligente, muito culta, e, mesmo quando não foi mais à escola, os colegas com quem tinha feito contato, que gostavam dele, vinham em casa pra conversar com ele. Era tido como um sábio, era mais experiente que os outros. Como eu era meio boboca, e sabia pouco da cultura européia, aprendi muito com ele (…).
Um colega de classe trabalhava como estagiário, não declarado, num teatro de marionetes, umas marionetes grandes, típicas de Bruxelas. Ele nos propôs de também trabalharmos lá, mas as marionetes eram muito pesadas para mim, e para o Luís também não convinham (…). O teatro também tinha um café, e começamos a trabalhar no bar, servindo as bebidas, e comidas que íamos buscar no restaurante ao lado (…).
Luís era uma pessoa muito honesta (…) era o modelo intelectual de muita gente (…). Quando falo com alguém de Belém do Pará, todos conhecem, pelo menos de nome, a família Barata (…), inclusive um professor da Universidade de Harvard (…) ele conhecia a família Barata e o Luís. Todos o conheciam. O professor os conhecia muito bem, tinha sido vizinho dos Baratas, brincado com os filhos, durante sua infância. E todos se espantavam quando eu dizia que tinha morado com o Luís durante três anos. Me diziam que ele era um diretor de teatro famoso em Belém, e que militava pelos direitos dos gays, o que acho ótimo (…).
Passamos o Natal de 1967 em Londres, na casa da minha prima (…) fomos pra Suiça, e outra vez pra Alemanha (…). Durante o verão, partimos, pedindo carona na estrada, pra Marseille, no sul da França, e fomos até Algers, na Argélia, mas não ficamos muito tempo porque eu, em tanto que mulher ocidental, era agredida na rua. Em seguida fomos pra um lugar balneário na Espanha, onde alugamos um quarto na casa de uma família. Em Marseille nos juntamos a um grupo de hippies, no cais, e nos alojamos num hotel abandonado, caindo aos pedaços, onde eles dormiam. De manhã a policia nos prendeu, e fomos fichados, porque, entre os hippies, havia alguns que tomavam heroína, e queriam ver se também tínhamos ou consumíamos”.
 

Em uma dessas viagens para Amsterdam, Susana ganhou de seus tios que a criaram uma câmera 8mm, com a qual filmou o Luís andando nas ruas de Bruxelas [em breve postarei aqui um vídeo registrado por Susana na Bélgica]. 

O último apartamento em que viveram na Bélgica. Na foto, Luís e Susana

“Moramos em quatro lugares juntos, em Bruxelas. O primeiro não tinha nem pia; era um porão e tinha um bebedouro de pedra, com uma torneira de água fria. Quando nos apresentamos, a proprietária nos explicou que, se comêssemos carne de cavalo, sairia menos caro do que carne de boi. A idéia nos horripilou. Tomávamos banho em banhos públicos (…). No segundo lugar o aquecimento de gás era caro demais. Desde o primeiro mês, tivemos de dar o dobro do preço do aluguel, pra pagar o aquecimento (…). O terceiro apto, uma peça única, conseguimos quando amigos nossos, que tínhamos conhecido no INSAS, saíram. O quarto apto era localizado diante do terceiro (…) minúsculo, mas onde nos sentíamos melhor. Estava localizado encima da loja de um cabeleireiro de bairro, que trabalhava sozinho, e, mais uma vez, não tínhamos banheiro. Tomávamos banho no banheiro do cabeleireiro. Isso pra dizer que eram, realmente, condições de vida de estudantes (…). O Luís dava apelidos às pessoas… me chamava ‘ticuti’ porque sou pequena – eu lhe lembrava uma bolinha de gude (…).  

Bilhete deixado por Luís para Susana, 16/06/1968

O Luís gostava de varar a noite. Dizia sempre ‘a noite é uma criança’. Gostava de pessoas engraçadas, diferentes, com personalidades fortes. Não sei, ao justo, o que via em mim. Talvez lhe agradasse o fato de eu não amolá-lo, de não exigir nada dele. Também não exigia nada de mim. Ambos parecíamos ter a filosofia de ‘laisser vivre, laisser aller’ – deixar viver, deixar ser como queira (…).
Tínhamos tido as grandes revoltas estudantinas de maio de 1968, tínhamos ocupado a escola e, no meio da bagunça, o diretor me deixou passar do primeiro ano de direção/animação cultural de teatro para o segundo ano de edição de filmes”. 
 

Em 1968, Luís retornou a Belém para o casamento de Cristina Barata, sua irmã. Ele não iria mais voltar a Bélgica. Alguns meses depois, em cartas trocadas, Susana comenta que ambos perceberam “que era melhor ele ser meu amigo do que meu amante”. 

“A pedido do Luís, comprei um baú e enviei-lhe tudo o que era seu, inclusive os desenhos, exceto os que ele tinha me dado (…).
Há alguns anos tentei entrar em contato com o Luís, pela Universidade Federal de Belém do Pará, porque alguém tinha me dito que ele lecionava lá. Queria enviar-lhe os últimos desenhos que tinha, porque penso muito na morte. Não sei se ele recebeu minha carta, ou se já estava em São Paulo – em todo caso nunca respondeu (…). Imagino que o Luís refletia muito sobre seu futuro, sua carreira. Infelizmente não pensou em fazer um novo pedido pra ir pra Checoslováquia em março de 1968. Mas a Checoslováquia também tinha mudado, após uma invasão repressiva russa.
Víamos espetáculos de vanguarda, que devem ter servido ao Luís nos espetáculos que montou, mais tarde, em Belém. De qualquer maneira, o Luís sempre se manteve a par, onde quer que estivesse, por qualquer meio que fosse”.
 

Susana termina a carta com um poema do americano Robert Frost, que para ela lembra as escolhas de vida de Luís Otávio, seus diferentes caminhos. 

The Road Not Taken 

Robert Frost (1874–1963).  (in Mountain Interval –  1920) 

“Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
       
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
       
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
 

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.”
 

(Tradução livre de Marcello Gabbay e Michele Campos) 

A Estrada não tomada 

“Duas estradas divergiram num bosque,
Que pena, eu não poderia tomar os dois caminhos
E sendo um viajante, por um tempo esitei
E observei uma delas o quanto pude
Para onde ela pendia lá onde não se vê
 

Então tomei a outra, de tanto que serena
Talvez com maior razão
Por ser relvada e virgem
Ainda que por esse motivo, outros já
A tenham gasto de qualquer maneira
 

E ambos, naquela manhã, da mesma forma deitamos
Nas folhas que passo nenhum pisou.
Oh, guardei o primeiro para outro dia!
No entanto, sabendo como um caminho leva para longe,
Duvidei se algum dia eu iria voltar
 

Eu devo contar isso com um suspiro
Alguns lugares envelhecem e envelhecem, por isso:
Duas estradas divergiam num bosque, e eu –
Tomei a menos percorrida,
E isso fez toda a diferença.”

Luís Otávio no INSAS, Bélgica

Luís Otávio no INSAS, Bélgica

O dançarino da corda

Posted in 5-Personagens de Barata on 03/07/2010 by opalhacodedeus

O Palácio dos Urubus, 1983

Morre hoje Luiz C. Assim o conheci nas conversas sobre teatro e sobre o Cena Aberta com Wlad. Não o conheci pessoalmente, e somente hoje, com sua partida, chega para mim a informação de que era um poeta. Já o era, pois um ator é um poeta.

Morre da mesma maneira que um de seus mestres, o responsável por eu saber de sua existência, Luís Otávio Barata, com um ataque fulminante que paralisou seu coração. Bem pertinho do mesmo cenário em que tantas vezes estiveram juntos, o Bar do Parque.

Na minha memória limitada será sempre uma bailarina dançando às avessas, saia de filó e vassoura na mão, imagem de uma foto que tenho em mãos. Com certeza, nela, já poetizava. E como diz outro poeta, “os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.

Vá, e lá serás iluminado por outros poetas, Luís Otávio, Walter, André, Ronald…

Já ouvimos falar muito do que dança na corda; queremos conhecê-lo agora (…) O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponto e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento. Friedrich Nietzsche.

Leia mais sobre Luiz C. no Bomgá da Mata

Lista de Espetáculos

Posted in 2-Cenas e Cenários on 01/07/2010 by opalhacodedeus

Esta é uma lista preliminar dos espetáculos realizados e produzidos por Luís Otávio Barata. Espetáculos que tiveram sua participação como: diretor, encenador, cenógrafo, adereçista, figurinista, artista plástico, ator…

Essa lista, assim como a pesquisa, ainda está em processo, por isso conto com a ajuda de todos aqueles que participaram ou testemunharam estas cenas. Mandem seus relatos, correções e omissões para somar nesse memorial. Click nos espetáculos em vermelho e conheça suas histórias, curiosidades e as galerias de fotos disponíveis. Bom estudo! Boa diverssão junto a história do Teatro Paraense!  

1- Trabalhos realizados e produzidos pelo Teatro Cena Aberta:

2- Trabalhos realizados em parcerias com outras cias e instituições:

  •  Maria Minhoca (1969)
  •  Vereda da Salvação (1970)
  • As Troianas (1972)
  • A Chegada de Lampião no Inferno (1978)
  • O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1979)
  • Saturnália (1984)
  • Aquém do Eu, Além do Outro (1984)
  • Um baile em Hiroshima, logo após a bomba (1986)
  • Alfredinho quem diria, acabou no Waldemar (1987)
  • Vejo um vulto na janela, me acudam que sou donzela (1989)
  • Farsas Medievais (1990)
  • Hamlet (1992/93)
  • Zumbi (1994)
  • São Nelson Nosso Rodrigues (1994)
  • Marat/Sade (1994)
  • O Mendigo ou Cachorro Morto (1994)
  • O Lixo, a Cidade e a Morte (1995)
  • Educação: insista, persista e nunca desista (1996)
  • Morte e Vida Severina (1996)
  • O Amor Abandonado de Jennifer (1996)
  • Namorados da Lua (1996)
  • Borderline (1996)
  • Auto de Natal (1996)
  • O Mambembe (1997)
  • A Vida é Sonho (1997)
  • O Auto do Círio (1997)
  • O Auto da Compadecida (1997)
  • A Cruz e a Moça (1997)
  • Bufonaria Brecht – Rua da Vida nº 100 (1998)
  • Os Saltimbancos (1980)
  • Milksheakspeare (ano ?)
  • Quem Roubou meu Futuro? (ano?)
  • O Triângulo Escaleno (s/ data)

Genet – O Palhaço de Deus (1987-1988)

Posted in 2-Cenas e Cenários on 30/06/2010 by opalhacodedeus

A Paixão de Ajuricaba (1978/79)

Posted in 2-Cenas e Cenários on 30/06/2010 by opalhacodedeus

O Teatro Cena Aberta apresenta: “A Paixão de Ajuricaba”, texto de Márcio Souza, apresentado nas ruas, praças e bairros de Belém, em fevereiro de 1978 e ainda em 1979. 

Nesse período o grupo adotou textos regionais para suas montagens, como do amazonense Márcio Souza, mas até estes passavam por mudanças, nunca eram montados em sua versão original, havia um minucioso estudo de adaptação para adequá-los às preocupações sócio-político-culturais de Belém, e até mesmo aos conflitos agrários no Pará, como foi o caso de “A Paixão de Ajuricaba”.  Espetáculo montado durante as discussões sobre o projeto de emancipação do índio, marco da associação do TCA com outras entidades, postura adotada como forma de fazer do teatro um meio de participação política, e não um fenômeno isolado das outras lutas, em parceria com o Grupo de Apoio ao Índio, Associação Regional dos Sociólogos do Pará, e Associação Brasileira de Antropologia do Pará. Pela relevância do tema, a peça ainda foi convidada para se apresentar na Sala Martins Pena do Teatro Nacional, em Brasília, no ano de 1979. Este espetáculo, quando apresentado no anfiteatro da Praça da República tinha como cenário apenas um mapa do Brasil pintado no chão, demarcando territórios indígenas.

Curiosidade: as montagens de rua do TCA faziam uso circular do espaço, entendendo que o círculo funciona como mantenedor de grande energia ao demarcar o espaço-ritual e performático da ação (LIGIÉRO, 2004, p. 92).

“A botânica que tem a praça, e também essa coisa urbana entrelaçada, essa selva do “Ajuricaba”, passou a ser uma selva urbana, e isso era muito forte, porque na realidade você usava o artifício do teatro de arena e na realidade o ator do teatro de arena tem que estar em circuito 360 graus daquilo. Porque o público está ali. Então sua interpretação tem que estar voltada para todos esses ângulos. A gente estudava muito isso, como a cena poderia ser desenvolvida nesse ângulo e atingir todos os outros ângulos, atingir melhor a amplitude também” (Emanuel Franco, arquiteto e artista plástico, ex-ator do TCA, 2010).

“A vantagem que vejo no trabalho da rua está precisamente no fato de o espectador ser apanhado desprevenido no curso de sua vida. Literalmente ele é pego pelo teatro, quando estava vivendo ou pretendendo viver uma dimensão outra de sua existência. Daí então, me parecer difícil qualquer avaliação de um teatro como o que fazemos, usando a régua e o compasso que aferem um espetáculo realizado dentro do Theatro da Paz ou do Teatro Experimental Waldemar Henrique. Na praça, a convenção é outra, e não me parece exagerado dizer que a sacralização do fato teatral, embora exista, é reduzida à sua menor dimensão. Contudo, nesse trabalho do Teatro Cena Aberta, o que mais me agrada é precisamente o período de ensaio, aquele período em que se vai construindo mansamente aquilo que será o que chamam de espetáculo. Por ensaiarmos também em praça pública, temos desde o começo o espectador que acompanha a carpintaria do espetáculo, sua feitura e seu acabamento. Então, esse aspecto significa mostrar de dentro para fora, desmistificadoramente, o que representa a prática teatral, geralmente encarada como ameno diletantismo de pessoas ociosas, mais empenhadas em gastar seu tempo com frivolidades que em executar um trabalho constituído de esforço, disciplina e muita paciência” (Luís Otávio Barata, 1980).